SÁBADO | 18 DE MARÇO 2017 - 22H30

no project

 

IMPROVISANDO (POR TUDO E POR NADA)

No início era o nada.

Depois veio o verbo: improvisar. Aliás, improvisar! Exclamativo. Imperativo. Eu improviso, tu improvisas, ele improvisa. Nós improvisamos!

E do nada, do “não projecto”, do mero prazer de improvisar com dois amigos-músicos, surge o trio de ocasião. E do trio de ocasião surge o momento em que o nada se transforma no tudo - imenso tudo - que é esta música. Música de tudo e de nada. Música improvisada. Música de amizade. Música amada. Música feita de cumplicidade, de sintonia, de sincronia, de química, de ideologia. Música feita de especulação, de divagação, de derivação, de intuição, de instinto, de tentativa e erro. Música feita de trabalho, de disciplina, de insistência, de persistência, de teimosia. Música feita de suor. Música feita de amor. Aliás, música feita de muito amor. Música feita de muita amizade. De muito tempo. De muito tudo, de muito nada.

Sim, é verdade: é disso que quase todo o jazz é feito... Mas depois há sempre mais algum "je ne sais quoi” que o singulariza - que o torna “isto” ou “aquilo". Em último caso, que o faz encaixar num dos dois únicos géneros musicais que Duke Ellington dizia existirem: a boa música... "and the other kind”… Mas um programa jazzístico como este, só de improvisações feito, é praticamente “só" isso. O "je ne sais quoi" é a conjugação imaculada dos talentos destes três instrumentistas, nomes incontornáveis da história do jazz made in Portugal.

A partir daí, a partir do momento em que começam a improvisar os seus diálogos rítmicos (e, obviamente, melódicos e harmónicos), tudo vai acontecendo como que por magia, e as músicas nascem exactamente como o acaso quer: com cerca de um minuto e meio, ou com mais de 21 minutos, ou com muitos tempos intermédios (no duplo sentido…). Mas sempre, sempre, sempre com a paixão pela improvisação que só os grandes músicos sabem como gerir. Com a cabeça e com o coração. Ou seja, com a alma. Com o nada que agora é tudo. Num disco e ao vivo. Música sempre nova, sempre aberta, sempre livre, sempre diferente, sempre distinta. Infinita. Como se nada fosse.

João Paulo Esteves da Silva (piano)
Nelson Cascais (bass)
João Lencastre (drums)

 

"Os membros do No Project Trio são três exemplos de músicos indevidamente conotados com o “mainstream” do jazz que em várias ocasiões têm ido para bastante longe dessa caixa de arrumação. Mas… o que é o “mainstream”, afinal? Uma linha de produção que reproduz passivamente os modos de fazer do passado? É um jazz fácil e de pretensões comerciais? O que João Paulo Esteves da Silva, Nelson Cascais e João Lencastre realizaram ao longo dos seus percursos não se define nem de uma maneira nem de outra. Basta ouvir os discos a solo de Esteves da Silva ou os seus duos com Dennis González para o perceber. O trabalho de Cascais em nome próprio também não cabe aí, e muito menos o que apresentou com o seu Decateto. Um projecto como o Communion afasta Lencastre desse âmbito, e aquilo que tem desenvolvido com, por exemplo, Rodrigo Amado não condiz, de todo, com essa classificação. Em conjunto, sob o descomprometido selo No Project, é uma via de abertura e exploração que escolhem, cada peça consistindo numa improvisação sem determinações escritas.

Como o próprio título indica (“Vol. II”), esta é a continuação de um primeiro tomo que se propôs reavaliar o formato do trio de piano jazz. Mas se essa incursão pode ter sido tomada então como uma simples curiosidade, agora já não é possível fazê-lo. As interrogações que se colocam neste disco e as respostas que são dadas, mesmo quando inconclusivas, são para levar muito a sério. E precisamente porque a atitude não é a da criar “outra coisa” com os instrumentos em causa, o piano, c contrabaixo e a bateria, mas pegar no espólio técnico, sintáxico e expressivo desta fórmula para lhe retirar outras consequências. Nesse aspecto, o que aqui vem é uma delícia. Nada renega e é com isso que procura ir mais longe, sem tentar agradar a públicos estranhos às questões colocadas ou mesmo àquele para o qual certos padrões são sagrados. Que bom que é quando um disco nos obriga a pensar…" IN JAZZ.PT