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  EXPOSTA NA FÁBRICA  
  Joana villaverde       Pintura    

“On doit toujours s’excuser de parler peinture” Paul Valéry

A mulher aflita

Sobe-se a escadaria da antiga Faculdade de Ciências- junto ao jardim botânico onde tantas vezes brinquei com a minha mãe ou a minha madrinha.
Os degraus estão agora encardidos dos passaros e torna-se manifesto que os limpam pouco.
Avança-se por velhos corredores, espessos, sem sol, frios.
Atravessa-se as salas deo Museu de Historia Natural, onde se acumulam pedras lindissímas.
E lá dentro, por fim, encontramos uma mulher.
Essa mulher deve-se à pintura, menos às cores do que à dinamica dos traços de Joana Villaverde.
É um circulo que está quase a fechar-se, mas que encontra aqui o seu apogeu.
Esta mulher, com outros rostos, acompanha o percurso discreto mas incisivo, da artista.
Entramos por aquelas paredes repletas de segredos gelados e começamos por ver partes de um rosto, um nariz, uma orelha, vistos de tão perto que se tornam exorbitantes e incomodativos.
Mas o que impora é o sentido envolvente das linhas aqui reforçadamente circulares, ali penetrantes e capazes de entararem por um corpo dentro. Até à noite dos corpos.
É aqui que um corpo começa a ganhar sentido, quase sempre obsceno, a saír de cena:
corpo de boca voraz, corpo onde os outros se podem rever como espelhos que encontram em cada um de nós os espaço que os oprime.
É esse aspecto de aflição que emerge nesta mulher que se expõe sem pose.
Nalguns quadros vemos uma cabeça demasiado grande sobre um corpo que se vai reduzindo até se apoiar apenas na fragilidade dos pés descalços.
Noutras vezes, o calor chega pela violência das cores envolventes.
Nenhum erotismo, nenhuma voz que vá além do murmurio.
Todas as falas são apenas um movimento dos olhos.
São os olhos que nos vêem e emudecem.
Neste percurso em que o chamamento de uma mulher vem apenas de um conjunto de
traço comprimidos, de paredes vazias onde por vezes ela se encosta ou mesmo se esconde,
pressentimos um mundo que está atravancado, mas que cria esse excesso por um escesso de vazio.
É uma dimenção politica que se abre no interior dos corpos e nos narra o que os devora.
A última imagem é particularmente interessante.
Aqui é uma mulher que se enrola no interior de uma moldura e o quadro parece estar ali a esmagar a protagonista.
É a a última partícula de um processo em que a pintura exerce todos os seus poderes e a
mulher ao deixar-se pintar, aceita a sujeição de um corpo a todas as instancias que a podem
submeter, desde os traços e as cores até ao domínio dos espaços, programando o tempo e a vida.
É nesta autocritica da pintura (onde um traço estrangula, onde uma voz sussura, a politica
dirige, os burocratas concentrcionários territorializam) que Joana Villaverde ultrapassa este ciclo.

Eduardo Prado Coelho in público, 27 de Fevereiro 2006

Joana Villaverde, 1970 born in Lisbon, Portugal. Lives and works in Lisbon, Portugal

www.joanavillaverde.com