Eram estas as sinfonias policromáticas que ele assobiava num tom silencioso com cada sorriso?
O mundo dançou mil voltas ao sol no segundo em que as minhas esferas siamesas amaram
minuciosamente as linhas que ele pintou.
Ele contou-me que isto tudo tinha acontecido num Boom de mãos dadas com um amanhecer.
Vestido de ópio e a luz do seu quarto mais escuro, esta era a morada da arte que ele encontrou no
ventre da mente.
Vi a corrida das gotas de água e espectros famintos, devoradores de linhas sem fim.
Vi a terra dividir-se, separar duas amantes.
Vi as tágides que ele inventou.
Elas mendigavam beijos de batom e cigarros, um pagamento boémio para nos levar á boca do Estige
onde um remoinho de orbitas quase perfeitas devolve a mente ao mar.
Agora digo-vos, somos vagabundos e reis.
Agora ele diz-vos, queimem as pálpebras e oiçam o canto de enxames de aves da noite que não
quiseram voar por medo de espantar estas conversas entre as amantes de deuses que ele pintou.
E agora?
É sempre a mesma pergunta na ponta do cigarro.
Agora vamos comer estes sonhos e deambular nestes corredores.
Vamos despir a nossa pele.
Vamos vestir orquestras de orgias alegres.
Vamos chama-lo.
Vamos perder-nos entre um copo e outro.
Vamos ver se o seu chapéu nos serve, e vamos conversar.»
Miguel Alain - Amigo pessoal |