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2 DE MARÇO A 30 DE ABRIL 2017

Salas Rilke e Woolf

 

O CORPO DA FOTOGRAFIA
FOTOGRAFIA/PINTURA DE FRANCISCO MAYA

Há dois ou três meses atrás, o Francisco Maya convidou-me a ir ao seu ateliê de designer e fotógrafo para ver um conjunto de trabalhos que vinha realizando há já algum tempo mas que ainda não ousara mostrar a ninguém. Parecia haver alguma insegurança no autor, não relativamente à solidez conceptual, técnica ou estética do trabalho, mas à ocasião de o mostrar. Qualquer dúvida que me pudesse ter sido inculcada desvaneceu-se mal entrei no espaço do ateliê: fiquei verdadeiramente impressionado com os trabalhos que vi nas paredes, sobretudo os que estavam já em impressões/formatos que se pretendiam definitivos ou, pelo menos, destinados à apresentação pública. Outros trabalhos encontravam-se ainda em formatos de portfolio mas pertenciam, sem dúvida, à mesma série conceptual e formal. Dois deles foram entretanto apresentados, por sugestão nossa, no Centro Cultural de Cascais, numa exposição de Fotografia Portuguesa Contemporânea comissariada por Margarida Prieto, tendo obtido assinalável êxito. Surge, agora, a hipótese de mostrar, nesta revista, um conjunto mais alargado de trabalhos, antes de uma exposição pública da série, que, esperemos, esteja para muito breve.
Todos os trabalhos são o resultado de um moroso trabalho sobre a imagem do corpo feminino nu e sobre o gesto artístico de a capturar e de a trabalhar como imagem na origem sugestivamente erotizante mas que se pode tornar poderosamente terrífica. Nada neles tem a ver com o instantâneo fotográfico do fotojornalismo ou com a encenação da fotografia de estúdio, mas sim com a montagem laboratorial (ou em computador) de um pesquisador inquieto acerca dos mistérios que a imagem do corpo feminino pode exercer sobre o espectador, que parte de processos oníricos que se tornaram familiares na arte ocidental desde o Surrealismo.
De resto, nem tudo é apenas fotografia, nem mesmo só montagem fotográfica ou construção digital, estamos sim diante de intervenções verdadeiramente multimedia. Vários trabalhos poderão ser classificados como técnicas mistas, apresentando intervenções de desenho ou pintura sobre a realização fotográfica, processo que tem sido utilizado nos últimos tempos por vários artistas da cena nacional e internacional. Outros, pelo contrário, são realizações fotográficas que partem, na origem ou no decurso do processo, de obras de carácter pictórico ou de desenhos.
Toda esta série de trabalhos de Francisco Maya levanta, pois, interessantes questionamentos acerca das fronteiras entre media e até entre géneros artísticos, pelo que preferimos classificá-la através da dualidade do binómio fotografia/pintura: embora o médium preferencial e o suporte final sejam os fotográficos, outros media (desenho e pintura) intervêm decisivamente, antes, durante ou depois do processo fotográfico, além de reconhecermos, em muitos dos momentos do processo criativo, uma concepção verdadeiramente pictural da imagem, com referências claramente pictóricas nas temáticas abordadas.
Assim, é o próprio corpo da Fotografia que é interrogado ou posto em causa neste empreendimento de matriz fotográfica, obsessivamente centrado nas imagens do corpo feminino desnudado e no poder por elas exercido, que não olvidou, por seu turno, as referências picturais da própria Fotografia e da imagem do nu feminino.
Finalmente, haverá que sublinhar que o principal fascínio que os trabalhos tão singularmente interpelantes de Francisco Maya exercem sobre os espectadores prende-se com a capacidade de tratar a imagem do nu feminino em múltiplas exposições e poses e em sobreposições e interpenetrações das suas partes constitutivas (cabeça, boca, olhos, tronco, pernas, ancas), numa entropia fulgurante de imagens que, no seu excesso, parecem ter perdido todo o referente concreto e não são mais do que espectros vazios de qualquer subjectividade ou mesmo de qualquer materialidade (e dos afectos e dos erotismos que tanto a subjectividade como a materialidade convocam), puras imagens em cascatas que rodopiam sobre nós ou se fundem, como num sonho ou pesadelo, com outras sugestões espaciais que nos rodeiam, o espaço, a natureza ou a paisagem, sem por um momento cederem à tentação fácil da erotização, mas, pelo contrário, alertando-nos, nesse mesmo excesso, para a morte de «Eros» que é inerente a essa (uma vez mais excessiva) exposição da nudez, numa autêntica violação visual do próprio corpo, finalmente mais castradora do que libertadora.

Lisboa, Agosto de 2011.
Fernando António Baptista Pereira

 

SOBRE O AUTOR

Francisco A. Goes Ferreira Maya (X.Maya) nasceu em Lisboa a 8 de Janeiro de 1967.
Vindo de uma família de artistas cedo mostrou a sua apetência pelas artes, começando no desenho, passando pelo design gráfico, pela pintura e uma paixão enorme pela fotografia, da qual dedica a maior parte do seu tempo.
No seu trajecto profissional, frequentou o Curso de Design Gráfico (IADE), trabalhou no departamento criativo do Diário de Noticias da Madeira , onde fez o curso de fotojornalismo. Foi responsável gráfico pela revista “Benfica Ilustrado”. Designer gráfico e fotógrafo dos roteiros turísticos “The Best Guide” e “Golf & Leisure” . Fundador e sócio-gerente da XMaya Design. Realizou várias exposições de desenho, pintura e fotografia, em vários locais como: Salão Nobre do Teatro Municipal do Funchal (1989), Centro Cultural do Porto Santo (2007), Centro Cultural de Cascais (2011), numa exposição colectiva Ibérica. Exposição de Pintura/Fotografia noTeatro Municipal do Funchal (2016)
Vários trabalhos publicitários, publicações em várias revistas.... concursos de fotografia, do qual com maior destaque, as publicações na PHOTO francesa, no “au plus Grand Concours Photo du Munde 2009, 2011 e 2012,uma fotografia nomeada no concurso internacional BLACK AND WHITE SPIDER AWARDSem 2010 e três nomeações no 10TH ANNUAL BLACK AND WHITE SPIDER AWARDSem 2015.
1 menção honrosa no 9TH ANNUAL INTERNATIONAL COLOR AWARDS em 2016

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