whitmanPrimeiro foram os especialistas do livro digital. Anunciaram que o e-book livraria a humanidade da necessidade de toda e qualquer livraria. Depois foi a falência generalizada dos grandes bancos privados e, com ela, as mil e uma técnicas de austeridade sobre milhões de contribuintes forçados a resolver as penhoras feitas sobre nações inteiras. Comprar um livro passou a ser um luxo. O efeito foi o desaparecimento de muitas pequenas editoras e de centenas de pequenas livrarias. Antes disso já os supermercados tinham posto em ruínas a ideia de lugares de culto para a experiência de um livro. O intervalo entre a secção das massas alimentícias e a secção dos produtos de limpeza passou a disponibilizar selecções de best-sellers a preços de saldo. Reabilitou-se, é verdade, a ideia de que o livro pertence ao conjunto de bens essenciais. Mas a imagem do carrinho de compras onde se colocam livros (ao lado da carne picada) invadiu as próprias editoras, condenadas a adoptar sistemas de vendas on-line. Entre o livro digital e o carrinho de compras (real ou virtual), os últimos 20 anos agravaram a crença de que o sec.XXI nos livraria da ideia de livraria. 

Esta rarefacção dos lugares onde é possível não comprar um livro - depois de o ter desejado intensamente - inverteu a própria ambivalência do conceito kafkade “livraria”. Já não é o mundo que tende a livrar-se do livro, mas é uma certa ideia de livraria que nos permite livrar o mundo da ideia de que ele nos livraria da necessidade de uma livraria. A livraria passou a ser, pelo simples facto de existir, um gesto de insubmissão. Insubmissão de editores, insubmissão de autores, insubmissão de leitores. E, na base de tudo, insubmissão de livreiros, insubmissão de mulheres e homens que estão dispostos a pagar para que sobrevivam prateleiras carregadas de livros - mesmo que esses livros não se vendam, mesmo que estejam ali apenas para serem desejados e abandonados depois. “Livraria” deixou de ser um conceito derivado de “livro”. A livraria é agora uma declinação do verbo “livrar”. É que, cada vez mais, a nossa condição política se joga, não na experiência de libertar, mas na de livrar. Se o século XX foi o século das libertações - como emancipação (da mulher, dos homossexuais), como independência (das colónias), como autonomia (dos municípios, das nacionalidades) – o século XXI será o das livrações. O que importa hoje não é libertar ou libertar-se, mas livrar e livrar-se. Somos independentes como país mas não nos conseguimos livrar do cerco dos mercados. Somos cidadãos autónomos mas a nossa luta é livrarmo-nos das dívidas que as finanças não se cansam de nos atribuir para salvarem os bancos falidos. Emancipados, mas não nos livramos da estupidez que invade as escolas e os meios de comunicação. Livrar-se de todo o mal deixou de ser o conteúdo de uma prece para se transformar no programa das nossas vidas. Ora, só uma livraria nos livraria de todos estes males que cercam a nossa independência, que asfixiam a nossa autonomia, que minam a nossa emancipação. Manter um lugar onde os livros possam ser desejados sem que tenham que ser vendidos e onde seja possível encontrar o que não existe nos supermercados é livrar-se ao mesmo tempo do império do mercado e do contágio da estupidez. A Fábrica do Braço de Prata, porque não paga renda pelas suas salas, e porque não depende de quaisquer subsídios de secretarias de estado que a vinculem a planos de leitura, pode oferecer a Lisboa esse luxo. Por isso, temos a melhor selecção de títulos em ciências humanas, procuramos as melhores editoras em literatura, teatro e poesia, cuidamos de raridades e de obras perdidas. Os mercados, os especialistas em tecnologia, as grandes superfícies, todos acreditavam que nos livrariam do prazer das livrarias. Na Fábrica do Braço de Prata é a livraria que nos dá a certeza de que, pelo contrário, é cada templo de livros que nos livraria dos “investidores externos”, da monotonia do mundo digital e das grandes superfícies. Por que dizemos “livraria” em lugar de “livrará”? Por que conjugamos o verbo “livrar” no condicional e não no tempo do futuro simples? Porque o efeito de um livro é sempre imprevisível. Uma livraria só nos livraria se ….