Muito da história recente do fado tem-se jogado na diversificação/ampliação do tradicional aparato instrumental (guitarra + viola) — e sobre isso valerá a pena, um dia destes, tentar formular algumas questões. Seja como for, aquilo que nos aproxima ou afasta de um fadista são sempre, primordialmente, as singularidades da sua voz.
No caso de Helder Moutinho, descobrimos uma voz paradoxal que nos faz oscilar, seduzindo-nos no seu movimento, entre duas coordenadas: uma intimista e dramática, remetendo-nos para a tradição mais genuína do fado; outra distanciada, quase irónica, como se o canto fosse, de uma só vez, um testemunho e uma encenação, uma participação e um afastamento. O bem chamado Que Fado É Este que Trago? é um álbum exemplar dessa complexidade tecida de evidências e enigmas, desde logo expressa na estrofe de abertura do tema-título (poema do próprio Helder Moutinho, música de Yami): |