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Estar bem com Deus e com o Diabo

Da diferença já estamos todos cansados. O que nos falta aprender outra vez é o mundo das oposições binárias. Um mundo onde não exista nem o morno, nem o cinzento, um mundo com fronteiras nítidas entre o mar e a terra e onde entre o 8 e o 80 só esteja o vazio. Claro que a experiência dos contrários é tão artificial como a das diferenças. A primeira opera por disjunções, a segunda trabalha com inclusões infinitas. E nunca saberemos se Deus criou o mundo no registo “ou” se no registo “e”. Por isso, voltar a ver no par masculino/feminino uma oposição – e já não uma diferença – é tanto uma bizarria típica de uma antropologia anacrónica como a desconstrução do mito de um pensamento abrangente. Ora, é precisamente essa força da oposição radical entre o feminino e o masculino que Guida Scarllaty traz para o palco. Ali é mesmo um homem que nos aparece na performance de uma mulher. Tanto na esfera biológica do sexo, como na esfera performativa do género, como na esfera imaginária do desejo, a Guida Scarllaty existe sobre a oposição entre o masculino e o feminino. E as mil e uma figuras de mulher que ela nos dá ver só nos perturbam até à gargalhada visceral porque nos atiram para a descoberta de que, entre Deus e o Diabo, afinal não é preciso escolher. Basta deixar-se agarrar pelo cómico de uma falsa diva cantada pela falsa voz de um microfone desligado, diva que nos insulta com falsos sinais de sedução, para perdermos para sempre a inocência da continuidade entre sexo, género e desejo. Bruscamente, já não sabemos se aquilo que define o mais íntimo de cada um de nós é a nossa biologia, ou a nossa memória afectiva, ou a pregnância dos objectos que nos seduzem. Por isso, da descida aos infernos pela mão de Guida Scarllaty resulta muitas vezes a entrada num novo paraíso: aquele onde nos percebemos tão frágeis como no primeiro beijo arrancado às escondidas de uma esquina da escola.

* Nuno Nabais –
(Director/Fundador da Fábrica Braço de Prata, em Lisboa.
Professor no Departamento de Filosofia da Universidade de Lisboa)

O ESPECTÁCULO

É uma característica tradicional dos espectáculos de Café Concerto, beber inspiração no revivalismo dos grandes espectáculos musicais, a par da introdução de números de comédia e crítica social, sempre tão presente desde os textos de Bertold Brecht, assim como nos espectáculos de cabaret do pós-guerra. Em Portugal, os espectáculos de Café Concerto já conheceram dias melhores, na década de 60, 70 e 80 do século passado (tão perto e tão distante) em que quase estiveram a nível do que de melhor se fazia na Europa.
‘Cabaret Boylesk’ é uma tentativa (modesta) de recuperar esse tipo de representação proposta (e generosamente aceite) à Fábrica Braço de Prata, caída em desuso pela falta de empresários e meios cénicos de que a Cultura enferma em Portugal. Se conseguirmos divertir um pouco o espectador, é meia aposta ganha, porque é o público que sempre faz os êxitos ou os fracassos.

– Textos de Nuno Nazareth Fernandes, João Manuel Barros e Carlos Scarllaty
Interpretação de Zé Pedro, Ruben Monti e Guida Scarllaty
Direcção e Encenação de Carlos Scarllaty
Produção de Artes Cénicas | Publimatéria –

Os Actores:

* JOSÉ PEDRO

Produziu, encenou e interpretou diversos espectáculos para empresas de eventos, animação e teatros, nomeadamente para o Teatro da Trindade, onde realizou trabalhos como cenógrafo e aderecista durante alguns anos. Formador na disciplina de Cenografia na escola Etic durante 3 anos. Tem formação em cenografia para teatro e cinema, sapateado e maquilhagem profissional. Execução de guarda roupa para televisão em diversos programas durante 15 anos, onde trabalhou também como actor e animador, nomeadamente em produções do conhecido comunicador Júlio Isidro. Foi “Costume Designer” para a Walt Disney Company (Portugal e Espanha). –

* RUBEN MONTI

Tem 20 anos e vive na linha de Sintra. No ano de 2013 teve a oportunidade de se estrear como actor numa oficina de teatro, o que o levou a frequentar o curso de animador do Chapitô, acabando o mesmo com sucesso. Tem experiência de dança acrobática e expressão corporal. Desde então já passou pelas melhores salas de espectáculos do país, com apresentações periódicas em festas e eventos. Actualmente, é freelancer fazendo vários trabalhos de animação dentro e fora de Portugal. –

* CARLOS SCARLLATY (Guida)

Estreia-se no teatro como actor com apenas 16 anos. Frequentou o Curso de Teatro do Conservatório Nacional, e integrou várias companhias de teatro declamado profissional e revista, nomeadamente o Teatro do Gerifalto, e a Companhia de Teatro Popular dirigida por Mestre Ribeirinho, entre muitas outras. Participou em diversos filmes com destaque para “O Crime de Aldeia Velha” de Mestre Manuel Guimarães. Em 1975, inaugura o Café Concerto “Scarllaty Club” – o primeiro local apresentar em Portugal produções de espectáculo em Travesti, o qual dirige durante e representa em várias épocas. Em 1978 estreia-se como atracção, no Teatro de Revista no Parque Mayer, ao lado de Camilo de Oliveira, Ivone Silva e Tony de Matos. Trabalhou em vários países, nomeadamente em Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, comunidades portuguesas nos EUA e no Brasil. De regresso a Lisboa, reaparece com sucesso em programas de televisão e espectáculos de teatro. –

SCARLLATY, O DESPIR DO EGO

Acompanho há muito, praticamente desde o início o percurso da carreira brilhante do meu amigo Carlos Scarllaty, e se há algo que ele sempre presou foi o rigor com que se apresenta em público, o profissionalismo na representação e a qualidade dos seus textos que o próprio escreve. Um talento pouco comum nos dias de hoje. E tudo isso, tive a oportunidade de constatar quando, a seu convite, trabalhámos, em equipa, durante um ano e meio, eu dizendo poesia, ele vestindo o seu exuberante e excelente personagem, ambos prestando bonitas homenagens a alguns dos nossos melhores artistas de Teatro e outras Artes.
O Carlos Scarllaty, neste caso o seu alter-ego, a Guida Scarllaty, é o melhor e mais completo actor em travesti de fantasia e no burlesco, com um raro sentido de oportunidade quando dialoga e “provoca” o seu público que assim tem a oportunidade de colaborar consigo naquilo que hoje se chama “Stand-Up Comedy” mas que ele pratica há decénios. E, tendo mudado recentemente de local de apresentação dos seus espectáculos para a Fábrica de Braço de Prata (FBP), empreendimento de Cultura sobejamente conhecido em Lisboa, e disputado no meio Cultural com 10 anos de actividade, o qual tem revelado jovens e consagrados valores do Teatro, das Artes Plásticas, da Literatura e da Música, conseguiu o enorme feito de, num espaço de cultura onde nunca tinha havido espectáculos de travesti, captar um público difícil de conquistar e, para tal, se tornar já, pelo segundo ano consecutivo em artista residente, também porque é actor – e todo o actor é um transformista. E conjuga essa experiência tão importante com um raro sabor irónico e sempre oportuno do improviso, pisando assim, e de uma forma sempre brilhante os terrenos da actual onda do “Stand-up Comedy”. Por tal, e pelo seu valor, tem ganho um novíssimo público jovem, atento e entusiasta, que o redescobriu depois da sua ausência dos palcos de Lisboa por alguns anos, porque, para um actor o melhor prémio ainda e sempre é a admiração e as palmas dos diversos espectadores em cada noite de representação. E a prova de que o seu talento foi acarinhado e reconhecido, além de passar a fazer parte do elenco fixo da FBP – Fábrica de Braço de Prata na animação semanal, foi inaugurado um espaço de Café-Concerto, a Sala Charles Chaplin, onde ele se pode sentir à-vontade como um peixe na água.
Daqui, da minha tarefa de crítico e professor de Teatro – e fui o primeiro crítico a ousar fazer crítica aos espectáculos de travesti em épocas que poucos se atreviam, estou à vontade e posso afirmar que sou seu admirador confesso, e amigo, porque o Carlos Scarllaty tem ainda um talento maior e quase escondido: o de um bonito comportamento de humanidade para com todos aqueles que ama e trabalha.

* Tito Lívio
(Jornalista e Crítico Teatral do Jornal Artes e Letras)

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